Notícias | 24 de fevereiro de 2012 13:13

Mostra no CCBB reúne 85 obras de Tarsila do Amaral

Foi no Rio de Janeiro que, em 1929, Tarsila do Amaral fez sua primeira mostra individual no Brasil. Depois, expôs na cidade em 1933 e em 1969. Desde então, a artista modernista que talvez seja a mais frequente no imaginário popular nunca mais teve uma exposição na cidade. O CCBB quebra o jejum de 43 anos com “Tarsila do Amaral — Percurso Afetivo”, reunião de 85 obras da artista. Estarão presentes obras como Auto-retrato II, de 1926; Pont Neuf, de 1923; O Mamoeiro, de 1925; Paisagem com Touro, de 1925, e ainda, A Negra, Estrada de Ferro Central do Brasil e Operários.

Para o curador Antônio Carlos Abdalla, em “Antropofagia” (1929) estão reunidos os personagens das telas “Abaporu” e “A negra” — esta última, conta ele, foi criada pela artista a partir de uma foto de sua babá. O retrato dela foi encontrado pela família de Tarsila num de seus diários e será parte da montagem carioca. Outro dos diários, o de viagens que ela fez quando casada com Oswald de Andrade, foi usado como fio condutor da exposição.

— Tarsila pega notas de restaurantes, bilhetes de viagens de trem, fotografias, pouquíssimas coisas escritas e cria um diário visual da viagem. Não é textual. Isso tem uma forma um pouco caótica. Não se tem domínio absoluto de uma recordação. As memórias surgem no momento e vão sendo coladas no papel de uma maneira um tanto aleatória — conta o curador.

Inspirado pelo diário visual da modernista, ele optou por não organizar as obras no CCBB a partir de classificações acadêmicas. “Tarsila do Amaral — Percurso afetivo” é, como define, “uma mostra de colagens de obras da artista”.

A proposta livre permitiu a Abdalla, por exemplo, agrupar três telas em que Tarsila retrata o Rio no que chama de “trilogia carioca”. Assim, o público verá na sequência “Morro da favela”, “Estrada de ferro Central do Brasil” e “Carnaval em Madureira”, telas que são da fase conhecida como “Pau brasil”, todas de 1924, ano em que ela chegou à capital fluminense.

Do Rio, Tarsila e os modernistas partiram para Minas Gerais, onde, conta Abdalla, fazem “a redescoberta do Brasil, em que se valoriza o barroco mineiro”.

Dois anos depois da chegada ao Rio, Tarsila abre sua primeira individual em Paris, com crítica bastante favorável. No mesmo ano, ela se casa com Oswald de Andrade, e os dois viajam pela Europa e pelo Oriente Médio.

— Conta a lenda que a beleza estonteante de Tarsila parava pessoas nas ruas de Paris. Ela sempre teve essa coisa de mito da mulher deslumbrante, bonita, elegante, com dinheiro e talento. Mas não gosto de deixar de lembrar que, ao mesmo tempo, ela teve a vida muito marcada pela tragédia — defende.

Dor e esplendor

Tarsila perdeu a única filha, Dulce, e, mais tarde, a única neta, Beatriz, que pintou em vários retratos. Sua família, bastante rica, perdeu recursos na Crise de 1929.

Ainda assim, o esplendor de Tarsila é presença marcante na exposição seja pela exuberância de cores nas telas ou pelos objetos pessoais. Uma estola e um bracelete criados para ela por Paul Poiret, o estilista da alta sociedade francesa na década de 1920, foram cedidos pela família para a montagem.

A responsável pela obra de Tarsila entre os descendentes da modernista é sua sobrinha-neta, que carrega seu nome — e ganhou o apelido carinhoso de Tarsilinha, para se diferenciar da célebre tia-avó. Ela ainda cedeu para a mostra no CCBB pincéis, espátulas e um Moleskine com desenhos e anotações.

— É sempre um conjunto tão bonito de ser exibido reunido — diz Tarsilinha, 47 anos, que tinha oito quando a artista morreu, em decorrência de complicações após uma operação na vesícula, em 1973. — Era uma tia muito próxima, eu era a queridinha. Me lembro tanto dela, dos corredores da casa na (rua) Albuquerque Lins (em Higienópolis, São Paulo), da sala, dos quadros, de nós duas na casa.

Tarsilinha, que organizou o catálogo raisonné da artista, diz que conseguir 85 obras de Tarsila é “uma tarefa árdua”. O curador concorda. Para ele, os colecionadores têm uma relação afetiva com a obra da artista.

— Todos são muito ciosos de suas telas — afirma.

Além da exposição aberta agora, a artista ganhará em março mais uma reunião de suas obras — no livro “Tarsila — Os melhores anos” (M10 Editora), que trará imagens de seus trabalhos e sua história contada pela crítica Maria Alice Milliet.

Serviço

Centro Cultural Banco do Brasil

Rua Primeiro de Março, 66, Centro – RJ

Até 29 de abril de 2012

Horários: De terça a domingo, 09h às 21h

Grátis

Fonte: O Globo