Artigos de Magistrados | 06 de fevereiro de 2026 13:51

Em artigo, desembargador do TJ-RJ ressalta legado de mulheres que transformaram dor em ação

O texto foi publicado no jornal impresso Diário do Vale

O jornal Diário do Vale publicou, nesta sexta-feira (6), o artigo “Elas quebraram o silêncio”, de autoria do desembargador Wagner Cinelli, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ). No texto, o magistrado cita como exemplo as trajetórias da brasileira Maria da Penha Maia Fernandes, da estadunidense Rosa Parks e da paquistanesa Malala Yousafzai. “Quando mulheres convertem sua dor em ação, mais do que resistir, provocam mudanças no mundo”, destaca.

O magistrado ressalta que o rompimento do silêncio exerce função importante no enfrentamento à violência contra mulheres: “Ao levarem suas vozes além do espaço privado, essas mulheres ampliaram o debate público e tornaram visíveis formas de opressão antes naturalizadas”.

“Esse legado ultrapassa leis ou reconhecimentos internacionais e reforça que cada ato de coragem expõe a violência e ajuda a impedir que ela seja tolerada ou escondida”, escreve o desembargador, diretor Cultural da AMAERJ.

No TJ-RJ, o desembargador Wagner Cinelli preside o Comitê de Promoção da Igualdade de Gênero e de Prevenção e Enfrentamento dos Assédios Moral e Sexual e da Discriminação no 1º Grau de Jurisdição (COGEN-1º GRAU).

Leia o artigo na íntegra:

Elas Quebraram o Silêncio
De Rosa Parks a Maria da Penha, mulheres que transformaram a dor em ação e mudança social

Maria da Penha Maia Fernandes, Rosa Parks e Malala Yousafzai | Reprodução/Diário do Vale

Quando mulheres convertem sua dor em ação, mais do que resistir, provocam mudanças no mundo. Romper o silêncio é o primeiro passo para que experiências individuais se tornem debates públicos e gerem impactos sociais concretos. Levar o sofrimento à ação é transportar o íntimo para o coletivo.

Três trajetórias ajudam a evidenciar essa passagem do privado ao público: Rosa Parks, nos Estados Unidos; Malala Yousafzai, no Paquistão; e Maria da Penha Maia Fernandes, no Brasil. Mulheres de contextos distintos, unidas por um mesmo gesto político: transformar experiências vividas em questionamento das normas que sustentam desigualdades.

No sul dos Estados Unidos, na década de 1950, Rosa recusou-se a ceder seu lugar no transporte público, desafiando o segregacionismo. Sua prisão desencadeou protestos liderados pela comunidade negra, convertendo um ato individual em movimento coletivo. Embora lembrada principalmente por sua luta contra o racismo, sua atitude revela como mulheres negras sofrem discriminação e abusos além da opressão racial.

Malala mostra outra forma de articular coragem pessoal e mudança social. Alvo de um atentado por defender o direito de meninas à educação, transformou sua própria sobrevivência em plataforma de mobilização global. Ao projetar sua atuação em fóruns internacionais, ampliou o debate sobre educação, liberdade e proteção de crianças e jovens em contextos de exclusão.

Maria da Penha é outro exemplo de como experiências pessoais podem gerar mudanças institucionais. Seu caso chegou à Comissão Interamericana de Direitos Humanos e resultou na lei que leva seu nome, marco jurídico que reposicionou a violência doméstica como questão de interesse público.

Essas histórias convergem para uma ideia central: liderança não se define apenas pelo acesso a cargos ou posições formais de poder, mas pela capacidade de transformar vivências individuais em referência social. Ao levarem suas vozes além do espaço privado, essas mulheres ampliaram o debate público e tornaram visíveis formas de opressão antes naturalizadas.

Esse legado ultrapassa leis ou reconhecimentos internacionais e reforça que cada ato de coragem expõe a violência e ajuda a impedir que ela seja tolerada ou escondida. Por isso, a responsabilidade não pode ficar a cargo apenas do Estado. A mudança deve começar em todos os lugares: nas instituições, nas casas, nas ruas e em cada espaço da vida coletiva.

Wagner Cinelli de Paula Freitas é desembargador do TJ-RJ e autor dos livros “Sobre Ela: uma história de violência” e “Metendo a Colher”.

Leia também: Desembargador do TJ-RJ participará de evento sobre cidades e desenvolvimento econômico
Desembargador Marco Aurélio Bezerra de Melo falará no IAB sobre a reforma do Código Civil
STJ receberá propostas de enunciados para novos congressos da 1ª e da 2ª instância