
No Dia Internacional da Mulher, celebrado no domingo (8), o jornal “Monitor Mercantil” divulgou o artigo “O amanhã que queremos”, escrito pelo desembargador Wagner Cinelli, diretor Cultural da AMAERJ e presidente do Comitê de Promoção da Igualdade de Gênero e de Prevenção e Enfrentamento dos Assédios Moral e Sexual e da Discriminação no 1º Grau de Jurisdição (COGEN-1º GRAU), do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ).
O amanhã que queremos
Ao soar da campainha, a presidente do Congresso Nacional dirigiu-se aos presentes: “Hoje, 8 de março de 2076, anuncio que a Lei Maria da Penha está revogada”. A frase marcou a abertura da sessão da Casa Legislativa no Dia Internacional da Mulher.
Cinco décadas à frente de nosso tempo, o anúncio não simbolizava um retrocesso, mas o reconhecimento oficial de um percurso histórico que havia transformado as políticas públicas e, sobretudo, a cultura brasileira.
Naquele dia de 2076, a Lei Maria da Penha, promulgada nas primeiras décadas do século 21, era lembrada como a resposta do Estado a um cenário de violência recorrente contra meninas e mulheres. Mais do que um instrumento jurídico, a lei consolidou-se como um marco pedagógico ao afirmar que a agressão não era um problema privado, mas uma afronta pública à dignidade humana. Seu papel foi decisivo na estruturação de políticas de proteção, na ampliação dos canais de denúncia e no fortalecimento de uma rede de atendimento que orientou a ação pública.
Projeções da ONU, em 2023, indicavam que a paridade de gênero em escala global só seria alcançada no século 24. O Brasil, porém, acelerou esse processo. Em poucas décadas, redesenhou os caminhos de acesso a profissões e cargos de poder. Mulheres passaram a ocupar, de forma consistente, espaços antes majoritariamente masculinos em tribunais, parlamentos, universidades, empresas e organizações da sociedade civil.
Esse avanço repercutiu em decisões institucionais e em novos referenciais sociais. A presença feminina em postos estratégicos ampliou a conscientização coletiva e ofereceu exemplos concretos às novas gerações, reforçando a compreensão de que talento e vocação não se vinculam ao gênero.
Paralelamente, a cultura social também se transformou. Práticas machistas foram progressivamente rejeitadas, e a educação incorporou, de modo sistemático, valores de respeito e alteridade, entendida como a capacidade de reconhecer o outro como parte essencial da convivência democrática.
Nesse contexto, na segunda metade do século 21, um lema ganhou projeção nacional: “O outro sou eu”. A expressão sintetizava uma ética pública orientada pela empatia e pela corresponsabilidade, na qual a dignidade alheia passou a ser percebida como extensão da própria dignidade.
Ao longo desse processo, o Brasil, no cenário internacional, deixou de ser associado à violência contra a mulher e passou a ser reconhecido como uma sociedade mais pacífica e inclusiva. A revogação da lei, neste ano de 2076, passa a ser registrada como um gesto simbólico de maturidade institucional, não de esquecimento.
Seu legado permaneceu gravado nas políticas públicas, na formação das novas gerações e nas práticas cotidianas. A história, naquele momento, não se encerra: apenas vira de página. Afinal, a igualdade projetada no horizonte começa no presente, nas escolhas e ações que encurtam a distância entre o que somos e o amanhã que queremos.
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