quinta, 29 de outubro de 2020

AMAERJ | 02 de outubro de 2020 13:40

Revista Fórum: Cientista brasileira que sequenciou genoma do coronavírus é Hors Concours-2020

A excelência das pesquisas é a marca da atuação da doutora Jaqueline Goes de Jesus  | Foto: Rahel Patrasso/Reuters

Jaqueline Goes de Jesus foi escolhida pelos magistrados do Estado do Rio de Janeiro

por Sergio Torres

Biomédica graduada pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, Jaqueline Goes de Jesus será agraciada este ano com o troféu Hors Concours tradicional homenagem que o Prêmio AMAERJ Patrícia Acioli de Direitos Humanos presta a personalidades de destaque da sociedade brasileira.

A escolha da cientista se deu por meio de votos dos magistrados que são associados à AMAERJ, a partir de uma lista tríplice.

Leia também: Revista Fórum: Violência porta adentro
Revista Fórum: Rio alcança o topo da produtividade pelo 11° ano
Revista Fórum: Independência e dignidade judicial

Pesquisadora do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (IMTUSP), Jaqueline Goes de Jesus, de 30 anos, é mestre em Biotecnologia em Saúde e Medicina Investigativa pelo Instituto de Pesquisas Gonçalo Moniz, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e doutora em Patologia Humana e Experimental pela Universidade Federal da Bahia (UFB), em parceria com a Fiocruz.

Jaqueline coordenou a equipe que sequenciou os primeiros genomas do novo coronavírus no Brasil, trabalho que reuniu especialistas do IMT-USP e do Instituto Adolfo Lutz, da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.

Na entrevista à fórum, a biomédica diz que a pandemia mostrou ao mundo a importância da ciência no avanço da área de saúde.

JAQUELINE GOES DE JESUS

fórum: O Hors Concours 2020 é uma tradicional homenagem que o Prêmio AMAERJ Patrícia Acioli de Direitos Humanos destina a pessoas que tenham se destacado em trabalhos em prol da coletividade. A sra. foi a escolhida deste ano pelos magistrados fluminenses em reconhecimento à sua atuação no enfrentamento à pandemia. A sra. poderia comentar esta escolha? A surpreendeu, de alguma forma?

Jaqueline Goes de Jesus: Certamente, essa escolha me surpreendeu. Apesar de extremamente contente, pela importância do Prêmio AMAERJ Patrícia Acioli de Direitos Humanos, realmente não esperava tal extensão do reconhecimento. É sem dúvida um incentivo importante pelo trabalho que venho desenvolvendo há mais de quatro anos e que culminou com minha contribuição para o avanço da ciência brasileira, neste momento de pandemia em que o mundo se encontra. É também, sem dúvidas, o resultado dos esforços de uma grande equipe que, apesar de não estar na frente das câmeras nem estampada nas notícias, foi a força que permitiu esses avanços.

fórum: De que modo a crise na saúde impactou a sua área de atuação?

Jaqueline: No Brasil, a maioria esmagadora das pesquisas científicas na área da saúde é financiada pelo Estado. São recursos federais e estaduais que permitem o avanço do conhecimento em questões que afetam diretamente a saúde pública. A crise na saúde se reflete de forma significativa no nosso campo de atuação. Sem recursos para o desenvolvimento dos projetos e o corte nas bolsas de pesquisa, fica prejudicada a geração de novos conhecimentos que, através de uma cadeia, impactam na vida dos brasileiros. A pesquisa científica interage com diversos setores da saúde pública e subsidia uma série de tomadas de decisões que têm como beneficiário final o cidadão. Além disso, os processos científicos, pela sua natureza de teste de hipóteses, requerem continuidade em seu percurso para produzir resultados palpáveis. O não investimento já vem sendo sentido e se acentuará ainda mais nos próximos anos.

fórum: Na sua opinião, que ensinamentos a pandemia trará à sociedade, especialmente no Brasil?

Jaqueline: Acredito que a pandemia revelou a importância da ciência na área da saúde em todo o mundo. Todos anseiam pela descoberta e produção de uma vacina ou medicamento eficazes contra o vírus. A população começou a realmente acompanhar o trabalho dos pesquisadores e profissionais da área da saúde e a compreender a importância vital dessas profissões. Além disso, observamos uma mudança nas relações das pessoas com as outras, seja pessoalmente, seja virtualmente. As relações de trabalho estão diferentes. No campo tecnológico e de serviços, os hábitos mudaram. Acredito que a pandemia deixará como legado, entre outras coisas, a importância de se valorizar os pesquisadores e profissionais da saúde, incluindo aqueles que prestam serviço direto à comunidade. As pessoas também começaram a valorizar mais as relações pessoais e os hábitos de higiene. Acredito que isso será levado para o que chamamos de “novo normal”.

fórum: Que análise faz dos procedimentos adotados no país contra a expansão da pandemia?

Jaqueline: Infelizmente, apesar dos exemplos chineses e europeus, muito claros sobre o que deveria ser feito quando o vírus chegasse ao Brasil, as medidas de mitigação da transmissão viral demoraram a ser implantadas. Isso facilitou a disseminação do vírus, das portas de entrada como São Paulo e Rio de Janeiro para o restante do país. Outra questão importante que impediu o controle da pandemia foi a heterogeneidade e a baixa adesão às medidas. Ações descentralizadas, implementadas por prefeituras e Estados individualmente e pouco coordenadas, não surtiram o efeito desejado, prolongando o tempo necessário para o alcance do pico epidêmico e, em consequência, o decrescimento da curva.

fórum: A volta das populações às ruas, verificada em todo o Brasil nas últimas semanas, aumentará mais ainda a propagação do coronavírus?

Jaqueline: O relaxamento das medidas de controle da disseminação do vírus é preocupante, uma vez que uma maior quantidade de pessoas nas ruas poderá refletir em novas ondas epidêmicas, além de prolongar o estado de pandemia que estamos vivendo. Outra questão que também constitui um fator preocupante é a possibilidade de reinfecção pelo novo coronavírus.

fórum: Quais suas expectativas em relação à pandemia em 2021?

Jaqueline: Acredito que no primeiro semestre de 2021, caso aprovada uma vacina eficaz contra o novo coronavírus, ainda estaremos em processo de implementação e distribuição dessa vacina. Considerando o tempo e o percentual de pessoas necessários para ter uma imunidade coletiva que garanta a redução da disseminação do vírus, 2021 ainda será um ano em que precisaremos tomar precauções de contágio.